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Do improviso na pandemia à consolidação como política de saúde
 

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TELEMEDICINa

A sociedade contemporânea é marcada por um intenso processo de mediação tecnológica, em que as inovações digitais influenciam o modo como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Cada nova tecnologia altera não apenas a forma de transmitir informações, mas também transforma práticas sociais e culturais. Nesse contexto, a cibercultura representa justamente o conjunto de novas práticas e formas de sociabilidade que emergem com a popularização das tecnologias digitais. A influência do virtual e do tecnológico no mundo real é crescente a cada dia. Essa influência se estende também ao campo da saúde.

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A telemedicina é a prática da medicina à distância, que utiliza tecnologias digitais para fornecer serviços de saúde, como consultas, diagnósticos, análise de exames e monitoramento de pacientes, sem a necessidade de presença física, apenas por meio de plataformas online, facilitando o acesso à saúde e otimizando o tempo de pacientes e profissionais. 

Telemedicina amplia o acesso à saúde e transforma a relação entre pacientes e profissionais da área | Fonte: Portal Telemedicina

Durante a pandemia de Covid-19, a prática da telemedicina se popularizou, sendo fundamental para aliviar os pronto atendimentos, monitorar pacientes em isolamento e fazer uma teleconsulta para segunda opinião médica em alguns casos. Por isso, no período da pandemia, foi necessário a liberação emergencial desse modelo de medicina, com avanços significativos nos termos da legislação.

 

Antes da pandemia, em 2002, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução nº 1.643, que define a telemedicina como exercício da medicina mediado por tecnologias interativas, autorizando telelaudos e segunda opinião médica. Mas a prática ainda era restrita e pouco difundida.

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Já em 2018, o CFM aprovou a Resolução nº 2.227, ampliando a regulamentação, incluindo teleconsulta e telecirurgia, por exemplo. Porém, diante da forte reação dos médicos, a resolução foi revogada poucos meses depois, voltando a valer apenas a norma de 2002. Em 2019, a telemedicina era utilizada de forma pontual, com emissão de laudos à distância, mas não era aceita como alternativa à consulta presencial.

         

Durante a pandemia, em março de 2020, o Ministério da Saúde editou a Portaria nº 467, autorizando, de forma emergencial, teleconsultas, telemonitoramento e teleinterconsulta. Em abril de 2020, foi sancionada a Lei nº 13.989, que autorizou a telemedicina enquanto durasse a pandemia, garantindo validade legal às consultas remotas.

       

Após a pandemia, em 2022, o Conselho publicou a Resolução nº 2.314, regulamentando de forma definitiva a telemedicina no Brasil, estabelecendo diretrizes éticas, modalidades de uso e responsabilidades médicas. Em resumo, o processo de regulamentação pode ser entendido de maneira mais facilitado com a linha do tempo abaixo. 

A evolução das leis que moldaram a prática médica no país | Fonte: Conselho Federal de Medicina (CFM), Governo Federal (GOV) e Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

O modelo de medicina utilizado na pandemia de caráter emergencial, tido como uma solução a distância, se concretizou por sua capacidade de democratizar o acesso aos serviços de saúde de qualidade sem exigir deslocamentos. Nesse cenário, as regiões mais esquecidas, de difícil acesso, recebem o suporte de especialistas para teleconsultas, telediagnóstico e acompanhamento de casos.

A regulamentação: o caminho que fez as teleconsultas dispararem no país

Segundo dados da Saúde Digital Brasil (SDB), entre 2020 e 2021 (período do crescimento da pandemia) foram realizados mais de 7,5 milhões de atendimentos via telemedicina no Brasil, por mais de 52,2 mil médicos, com mais de 75 mil vidas salvas. Desses atendimentos, 87% foram primeiras consultas, evitando 6,5 milhões de idas desnecessárias ao pronto-socorro e identificando por meio de exames a necessidade de um atendimento presencial. Cerca de 1% dos atendimentos foram casos de risco de morte para Covid-19, que puderam ser encaminhados à emergência médica. 

           

​No início da pandemia, a maioria dos pacientes procuravam a telemedicina por suspeita de Covid-19. Com o tempo, os atendimentos onlines foram se estendendo para outras doenças. Desde então, esse modelo de medicina passou a ser procurado com maior frequência, já que oferece soluções rápidas, seguras e acessíveis para populações isoladas e vulneráveis. De forma comparativa, com relação a média de consultas, em 2020 foi de 400 mil consultas por mês, em 2021 essa média dobrou, e em janeiro de 2022 ela foi mais de três vezes superior ao volume do início da pandemia. 

               

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2023 e 2024 foram realizados cerca 4,6 milhões de teleatendimentos. Na Atenção Especializada à Saúde, de 2022 para 2024, o número de consultas aumentou 99,8%. Já o número de atendimentos de 2024 superou os de 2021, ano de pandemia. 

               

De acordo com os dados disponibilizados pelo Departamento de Informática e Sistema Único de Saúde (DataSUS), no primeiro semestre de 2025, foram realizados no SUS, um total de 231.782 atendimentos em teleconsulta médicas da atenção especializada distribuídas nas regiões brasileiras da seguinte forma:

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Dados regionais mostram onde a telemedicina mais avança e onde ainda enfrenta barreiras | Fonte:  DATASUS​

Esse levantamento revela tanto o avanço da modalidade quanto os desafios de acesso entre as regiões brasileiras. O Sudeste lidera com ampla diferença, foram 123.463 consultas, quase o triplo da segunda região com maior número, o Nordeste. Esse dado reflete a maior concentração de infraestrutura tecnológica e centros médicos em estados como São Paulo.

 

A região do Nordeste aparece em segundo lugar, com 45.432 atendimentos, indicando crescimento da telemedicina como estratégia para reduzir distâncias e desigualdades de acesso à saúde, principalmente em áreas interioranas.

 O Sul do país, com 35.758 atendimentos, também apresenta números expressivos, associados à maior oferta dos serviços de saúde digital e maior acesso da população à internet. O Norte, com 13.508 teleconsultas e o Centro-Oeste, com 13.621, registram os menores volumes de atendimentos, o que evidencia dificuldades estruturais, como conectividade precária em áreas remotas da Amazônia, baixa densidade populacional e menor oferta de especialistas.

               

A diferença entre o Sudeste e o Norte é gritante. A primeira região realizou quase dez vezes mais teleconsultas que a segunda. Essa disparidade mostra que, embora a telemedicina seja uma solução inovadora, sua expansão ainda depende fortemente de investimentos em infraestrutura digital, formação profissional e políticas públicas direcionadas.

As limitações do modelo remoto reveladas pela prática

Durante o período da COVID-19 foi necessário acelerar a digitalização de diversas áreas, principalmente da saúde. A teleconsulta é uma das principais marcas da telemedicina e veio para ficar, mesmo com o fim da pandemia. Essa modalidade ajuda a economizar recursos, evitar deslocamentos longos e levar atendimento a locais de difícil acesso que geralmente não teriam serviço médico.

               

Entretanto, a telemedicina apresenta algumas limitações, como: nem sempre a consulta online substitui a presencial, na qual é necessário examinar o paciente. Além disso, é importante considerar que para realizar uma teleconsulta de qualidade é essencial uma boa rede de internet e facilidade no uso da tecnologia, pontos que podem ser prejudicados considerando as diferenças regionais, geográficas e culturais dos pacientes.

               

No Brasil, a exclusão digital ainda é um grande desafio para a expansão desse modelo de medicina remota. Apenas 33% da população rural tem acesso regular à internet, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2023, do Cetic.br. Em comunidades indígenas e ribeirinhas, a situação é ainda mais crítica: menos de 20% dos moradores conseguem se conectar, segundo o IBGE (Suplemento de Comunicação 2022) e relatório da Anatel de 2023. Essas limitações exigem esforços para a continuação da expansão do modelo, justamente em regiões onde a telemedicina poderia ser uma alternativa essencial para superar as barreiras de distância e acesso ao sistema público.

             

A ginecologista e obstetra Giuliana Annicchino, formada pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência no Hospital Israelita Albert Einstein e especializada em medicina fetal pela USP, nos apresentou um relato de como esse modelo tem sido aplicado no Brasil. Ela atua semanalmente no programa materno-infantil da SAS Brasil. De São Paulo, ela acompanha gestantes do litoral oeste do Ceará por meio da telemedicina, experiência que, segundo ela, mostrou-se essencial em locais onde o acesso a especialistas é escasso.

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Giuliana Annicchino, ginecologista e obstetra

Giuliana faz parte da linha de cuidado materno-infantil da SAS Brasil | Reprodução Instagram

“O nosso projeto consiste em oferecer um ultrassom por trimestre para as pacientes do interior do estado do Ceará e de outras cidades próximas, porque são mulheres que geralmente não têm acesso a esse tipo de exame”, explica. Inicialmente, a Unidade Básica de Saúde (UBS) passa dados importantes para a equipe, como: quantas gestantes têm no município e a idade gestacional de cada uma delas. A partir disso, enfermeiras da SAS Brasil entram em contato direto com as pacientes e oferecem essa linha de cuidado. A equipe de Giuliana atua em colaboração com enfermeiras treinadas para realizar os procedimentos de ultrassonografia presencialmente em unidades de atendimento móvel do programa. Os exames são transmitidos para São Paulo, onde a médica interpreta as imagens e dá as orientações necessárias.

         

Ela relata que, inicialmente, se questionava quanto à possibilidade de realizar esses exames com a qualidade e atenção necessária. “No começo, dá um pouco de dúvida: será que vai dar certo? Mas as meninas são muito bem treinadas, e a curva de aprendizado da ultrassonografia é rápida. Então a gente consegue avaliar bastante coisa à distância”, afirma.

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A médica relata que esse acompanhamento remoto já foi decisivo em diferentes situações. Giuliana lembra de diagnósticos em situações de urgências, como gestações ectópicas (uma gestação fora do útero), gravidez molar (crescimento de um óvulo fertilizado anômalo ou um crescimento excessivo de tecido da placenta), malformação e restrições de crescimento fetal. “São condições que a gente consegue ver na teleultrassonografia, que a paciente precisa de um cuidado mais imediato e nos permite encaminhá-la para a maternidade com essa orientação”, destaca.

               

Os ganhos são claros, mas a médica reconhece as limitações do modelo. “O exame de imagem é completamente operador dependente. Estando à distância, a gente perde um pouco na avaliação, não tem uma acurácia tão grande como se eu estivesse lá fazendo”, pondera. Outro entrave da médica é legal, como seu registro profissional no CRM é válido em São Paulo, ela não pode prescrever medicamentos, por exemplo, para pacientes em outros estados. “Isso me impede de ser resolutiva em alguns casos. Dependemos muito de vínculos com instituições locais que acatem o nosso conselho, a nossa orientação, e consigam, de fato, resolver o problema desse paciente”, ressalta. Por isso, as informações mais importantes são passadas para a enfermeira responsável pela paciente no posto de saúde, visando a resolução dos problemas encontrados.

                

Nesse cenário, Giuliana Annicchino vê a telemedicina como um complemento, não como substituto do atendimento presencial. “É importante que a gente faça um serviço complementar e não substituto do cuidado que essa paciente já tem na unidade de saúde dela”. Para ela, o contato físico com o paciente é muito importante, mas o online ajuda muito, principalmente em locais onde faltam especialistas. “Quando a gente tá em grandes centros, existe uma oferta grande de especialistas para a população. Mas, em lugares em que falta esse atendimento mais especializado, a telemedicina é muito útil”, afirma. Já que os maiores vazios assistenciais estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste, segundo dados do Conselho Federal de Medicina, Demografia Médica no Brasil de 2023. “É uma ferramenta que acrescenta, que amplia o cuidado”, avalia.

               

Outra limitação reconhecida pela ginecologista é o acesso a internet. “O acesso digital ainda é desigual, e a gente precisaria do básico que ainda não existe para todos. Mas acredito que, com integração e investimento, a telemedicina pode seguir como um recurso muito útil, especialmente em regiões onde o acesso a especialistas é limitado.” Se, na pandemia, a urgência acelerou a adoção desse tipo de atendimento, o desafio agora é garantir sua continuidade. Para Giuliana, a equação passa tanto pela tecnologia quanto pela cooperação, já que nem sempre a telemedicina substitui o atendimento presencial. Para ela, o futuro da telemedicina depende justamente da integração entre os serviços: “Não adianta eu dar uma orientação se o médico que acompanha a paciente no posto de saúde não puder acatar. A telemedicina precisa caminhar junto com a rede local."

               

Mesmo com limitações, para os pacientes, a telemedicina é uma solução importante e um grande aliado no cuidado e acesso à saúde.

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“No começo, dá um pouco de dúvida: será que vai dar certo? Mas as meninas são muito bem treinadas, e a curva de aprendizado da ultrassonografia é rápida. Então a gente consegue avaliar bastante coisa à distância”, 

diz Giuliana Annicchino, ginecologista e obstetra.

A telemedicina que chega onde antes não havia acesso | Reprodução Youtube

Tecnologia a serviço da saúde em regiões remotas: a experiência do SAS Brasil

O projeto da SAS Brasil é uma das iniciativas, sem fins lucrativos, que adota o modelo híbrido de consultas para facilitar o acesso à saúde em algumas localidades distantes e prejudicadas. Esse propósito surgiu em 2013, com oito amigos, uma tenda de campanha, dois carros e duas motos. Inspirados pela mensagem do documentário "Quem se importa”, de Mara Mourão, Adriana Mallet e Sabine Zink Bolonhini, criaram a organização, com o desejo de transformar o acesso à saúde no Brasil.

               

Atualmente, a SAS Brasil se destaca por ser uma organização social de impacto e inovação. Eles unem a atenção primária e a secundária com a realização de ações remotas e presenciais, nas quais percorrem o Brasil com as próprias Unidades Móveis de Saúde, e potencializam os atendimentos, aumentando a resolutividade e reduzindo os tempos de espera na fila do SUS.

               

Esse projeto veio para atender e revolucionar o acesso à saúde para regiões, cidades e populações que vivem em locais afastados dos centros urbanos, nas regiões mais precárias. A SAS Brasil apresenta um trabalho premiado internacionalmente e reconhecido nacionalmente, no qual conecta pessoas, propósitos e a inovação para levar saúde às pessoas que mais precisam.

               

Para compreender e ficar por dentro do que se trata a SAS Brasil assista o vídeo abaixo:

O projeto leva saúde especializada e gratuita a regiões com acesso limitado | Reprodução Youtube

             

Como forma de entender verdadeiramente o impacto da atuação da SAS Brasil e, de maneira mais ampla, o impacto da telemedicina na vida dos pacientes, entrevistamos a Aline Machado, moradora de Celsolândia, um povoado de Acaraú (CE), a quase 300 quilômetros da capital, Fortaleza. Aline enfrentava algumas dificuldades de acesso ao posto de saúde local. “O postinho não fica tão perto, é um pouco distante”, explica. No entanto, foi durante a gestação de sua filha, hoje com 11 meses, que ela conheceu o atendimento remoto do programa materno-infantil da SAS Brasil e passou a conciliá-lo com o acompanhamento presencial na unidade de atendimento da Unidade Básica de Saúde (UBS).

             

A linha de cuidado materno-infantil da SAS Brasil foi estruturada para oferecer um acompanhamento integral tanto à gestante quanto à criança nos primeiros anos de vida. O programa se concentra em todo o período considerado crucial para o desenvolvimento da criança: os chamados 1.000 dias, que vão da concepção até o final do segundo ano de vida. Durante esse tempo, o bebê é acompanhado por uma equipe multidisciplinar, formada por pediatras, nutricionistas e odontopediatras, que atuam tanto em atendimentos remotos quanto presenciais.

             

Na área da saúde da gestante, a teleultrassonografia surge como um recurso essencial. Por meio dela, a mulher pode realizar o pré-natal com a mesma qualidade de diagnóstico sem precisar se deslocar até a cidade de referência, ampliando a segurança no acompanhamento da gravidez. Além disso, a gestante recebe suporte com teleorientação odontológica, acesso a materiais educativos em formato de vídeos e guias sobre nutrição e cuidados de saúde, que funcionam como apoio prático ao longo da gestação.

             

Abaixo está inserido o mapa de atuação do projeto na linha de cuidado materno-infantil nos estados brasileiros:

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Presença do projeto nos estados reforça o cuidado com mães e crianças em todo o Brasil | Reprodução SAS Brasil

Outro aspecto central do programa é a criação de espaços coletivos de apoio. A SAS Brasil incentiva a formação de grupos que reúnem mães em diferentes momentos da maternidade, sejam mães de primeira viagem ou mais experientes, em encontros online e presenciais. Esses grupos se tornam ambientes de troca e acolhimento, permitindo que as mulheres compartilhem dúvidas, desafios e experiências, encontrando uma rede de suporte emocional e informativo. Assim, o programa vai além do atendimento clínico, oferecendo também um cuidado voltado à construção de vínculos e à valorização da vivência materna.

             

Aline conta que buscou a iniciativa por conta própria. “Eu procurei no tempo da minha gestação. Aí entrei em contato e fiquei acompanhando com a SAS”, relembra. Desde então, ela segue em acompanhamento com a equipe. “Passei no tempo da gestação, e agora, quando a menina nasceu, continuo sendo atendida por eles. Eu fico sempre mandando mensagem, marcando consulta”, relata. Aline acrescenta que além da pediatra, o programa da SAS oferece vários outros suporte de saúde.

             

A experiência com a telemedicina, segundo ela, foi marcante. “Foi ótimo, eu gostei. São ótimos, muito atentos, muito prestativos”, afirma. Embora tenha sido a primeira vez que utilizou esse tipo de atendimento, para ela, a adaptação foi tranquila. “Foi bem fácil, não tive nenhuma dificuldade”, garante. Para ela, sua experiência foi “100% positiva”.

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Entre as vantagens do serviço, Aline destaca a agilidade. “É bem mais rápido, eu acho mais rápido, bem melhor”, resume. Além disso, o acesso a especialidades que não estão disponíveis presencialmente no posto de saúde foi decisivo. A falta de algumas especialidades no posto de saúde da região tornou o atendimento remoto ainda mais relevante para Aline. Na UBS que frequentava, não havia pediatra disponível, um cuidado que se tornou indispensável após o nascimento da filha. Foi nesse contexto que a tecnologia possibilitou um acesso mais ágil e eficiente à saúde. Hoje, ela realiza as consultas pediátricas pelo programa de telemedicina da SAS Brasil. “A pediatra da SAS é ótima. E no postinho não tem, né? A gente não tem pediatra presencial no postinho”, explica.

             

A paciente também realizou exames pela linha de cuidado materno-infantil, como o ultrassom, em formato híbrido, ou seja, presencial com técnica no local e análise remota por médicos. “O ultrassom foi ótimo, tudo perfeito, gostei de tudo”, avalia. Para realizar esses exames a paciente precisava se dirigir a uma Unidade de Telemedicina Avançada (UTAs) instalada na cidade. Essas estruturas adaptadas oferecem consultórios médicos para a realização de atendimentos presenciais e remotos. As UTAs da SAS Brasil contam com profissionais da saúde locais que atuam em parceria com médicos especialistas à distância. 

             

Ao comparar os atendimentos, Aline não tem dúvidas sobre a importância do serviço remoto. “Eu só tenho pontos bons. Sempre fiz o atendimento com o postinho e com eles, não teve nada ruim não, graças a Deus.” Questionada se confiaria nesse modelo para outras áreas da saúde, responde sem hesitar: “Com certeza.”

             

A experiência de Aline revela como a telemedicina vem preenchendo lacunas importantes no atendimento à saúde em regiões distantes. Para ela, a possibilidade de acessar consultas pediátricas que não estavam disponíveis no posto de saúde local foi decisiva para o acompanhamento desse momento tão delicado e importante na vida de sua filha e na sua.

             

Para compreender melhor como esse modelo funciona nos bastidores e quais transformações ele trouxe para a prática médica, ouvimos a pediatra Flávia Calanca, inicialmente voluntária no projeto e hoje coordenadora do programa de pediatria da SAS Brasil, que compartilhou sua visão sobre os avanços, desafios e resultados desse tipo de atendimento.

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“Foi ótimo, eu gostei. São ótimos, muito atentos, muito prestativos”, afirma Aline Machado, paciente da SAS Brasil

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Flavia Calanca, pediatra

Flávia começou como voluntária no projeto e hoje é coordenadora da pediatria | Reprodução Instagram

A doutora lembrou que no início do seu trabalho foi cética em relação às consultas virtuais. “Na minha formação, nos anos 2000, não se falava em atendimento médico-paciente por tela. Sempre se acreditou que só um bom exame físico poderia garantir o diagnóstico. Achei que seria impossível examinar uma criança online”, contou.

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Esse paradigma começou a mudar quando ela iniciou os atendimentos voluntários na SAS Brasil em 2022. A estrutura da instituição, com contêineres equipados e profissionais de apoio, possibilita que o médico, mesmo à distância, consiga realizar exames essenciais. “Com o avanço da tecnologia, temos estetoscópio digital, otoscópio e até ultrassonografia remota. Assim, é possível escutar o coração, ver ouvido, garganta e acompanhar gestantes em tempo real, mesmo a quilômetros de distância”, explicou. 

             

Flávia relata que a telemedicina já salvou vidas. Em um dos atendimentos, conseguiu identificar sinais de cardiopatia grave em um bebê de três meses e, por meio da rede da SAS, encaminhou a criança para um hospital de referência. “A visão do especialista fez diferença. Esse bebê precisava de intervenção imediata, e sem a teleconsulta poderia ter tido um desfecho muito pior”, destacou.

             

A médica reforça que a telemedicina não substitui o atendimento presencial, mas amplia o acesso. “Ela vem para agregar. Para populações vulneráveis ou que precisam viajar quilômetros para encontrar um especialista, a tela representa economia de tempo, custo e, muitas vezes, a única chance de acompanhamento médico adequado.

             

Para a pediatra, trata-se de um caminho sem volta. “A pandemia trouxe regulamentações que garantem segurança para médicos e pacientes. Agora, o desafio é inserir a telemedicina na formação dos profissionais de saúde. Ainda falta isso nas universidades, mas é fundamental para que esse legado continue crescendo”, avaliou.

             

Além das consultas remotas, a SAS mantém expedições presenciais em diversas regiões do país. Para Flávia, é justamente a combinação entre os dois modelos que potencializa os resultados. “Não é uma coisa ou outra, são as duas juntas. A teleconsulta dá continuidade ao cuidado, enquanto as ações presenciais fortalecem o vínculo e ampliam o alcance.”

             

Esse cenário reflete a relevância da atuação da SAS Brasil, que busca reduzir desigualdades no acesso à saúde e, nesse caso, ao cuidado materno-infantil. As consultas presenciais oferecidas pelo SUS, muitas vezes exigem deslocamentos muito longos, cansativos e perigosos. Nesse cenário, a telessaúde é uma alternativa de grande impacto para as consultas presenciais oferecidas pelo SUS. Com atendimentos simples que não exigem equipamentos sofisticados, a equipe de profissionais da SAS realiza diariamente teleatendimentos, utilizando sua completa plataforma de telessaúde.

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“Na minha formação, nos anos 2000, não se falava em atendimento médico-paciente por tela. Sempre se acreditou que só um bom exame físico poderia garantir o diagnóstico. Achei que seria impossível examinar uma criança online”, afirma Flávia Calanca, pediatra.

Telemedicina no sistema público: o caminho para chegar a quem mais precisa

A telemedicina teve um salto durante a pandemia, mas a sua consolidação no Brasil chegou mais tarde e ainda segue em curso, visto que esse modelo depende de muitos pontos para funcionar. O primeiro é garantir uma conectividade de qualidade, principalmente em regiões onde o acesso à internet ainda é limitado. Também é essencial que os aplicativos sejam simples e intuitivos, pensados para pessoas de diferentes idades e níveis de entendimento da tecnologia. A integração com o SUS completa esse panorama, permitindo que o atendimento digital faça parte do sistema de saúde pública e chegue a quem mais precisa.

             

No entanto, os obstáculos para essas garantias ainda são grandes. Manter a  infraestrutura em áreas remotas custa caro e exige um acompanhamento constante. Além disso, médicos e pacientes precisam de capacitação digital, já que muitos profissionais ainda não tiveram um treinamento adequado para lidar com a telemedicina e parte da população não está familiarizada com o uso dessas ferramentas. O financiamento público também é um ponto sensível, pois sem recursos contínuos, as plataformas podem perder qualidade ou serem inviáveis. Isso tudo é entendido a partir de pesquisas e investimentos no setor.

         

Professora do curso de Biomedicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ana Cláudia Patrocínio tem formação em engenharia biomédica e experiência com imagens médicas. Embora não seja especialista em telemedicina, acompanhou de perto a evolução dessa prática no Brasil e ministra essa disciplina na graduação. Durante a pandemia de Covid-19, viu de dentro da universidade e do Hospital de Clínicas (HC-UFU) o impacto que a digitalização acelerada teve na saúde pública.

             

Segundo ela, a telemedicina já existia antes da crise sanitária, mas era limitada pela legislação. Como “tudo na nossa vida é política”, afirma, “O Conselho Federal de Medicina sempre brigou, e ganhou, para que não se deixasse evoluir a telemedicina no Brasil”, relembra. Até 2019, só eram permitidos procedimentos “assistidos”, em que o paciente precisava estar acompanhado de um médico generalista no local da consulta. Foi só com a pandemia que não se viu outra alternativa, se esse modelo remoto não fosse liberado, o sistema público e privado entraria em um colapso ainda maior.

             

Esse cenário abriu caminho para avanços significativos. Ana Cláudia cita como exemplo as teleconsultas hoje em funcionamento no HC-UFU. Como programas de consultas virtuais para o acompanhamento de recém-nascidos que saíram da UTI neonatal. Esse modelo “serve de assistência, e ainda ajuda os pais a levarem a criança antes para casa, mediante esse tipo de acompanhamento”, explica. Também foram implantados sistemas de monitoramento remoto para pacientes dependentes de respiradores, permitindo que permaneçam em casa sob supervisão digital. Esses programas citados pela pesquisadora, são apenas alguns exemplos atuais e importantes da implementação da telemedicina no sistema público de saúde.

             

Para a pesquisadora, o avanço da telemedicina não deve ser entendido como risco de aprofundar desigualdades, mas como oportunidade de reduzir distâncias. “Eu não acho que isso aumentaria a desigualdade. O que conseguimos de avanço veio para aumentar a equidade”, defende.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela lembra que hospitais públicos de referência, como o de Barretos, já realizam procedimentos de excelência em telemedicina, mostrando que a tecnologia pode estar a serviço do SUS. “Às vezes, o paciente não tem o dinheiro do passe de ônibus. Ou, ele está em uma consulta e, quando chega, ela é cancelada”. Ela defende que a telemedicina tem o potencial para reduzir as desigualdades sociais e econômicas do Brasil, principalmente para as famílias que estão em locais com menos acesso à saúde. 

             

Segundo a professora, a telemedicina tem impactos diferentes no setor privado e no sistema público de saúde. Ela explica que nos serviços particulares, muitas vezes funciona apenas como uma comodidade, sem trazer ganhos reais de acesso à saúde. “Em clínicas privadas, pode virar quase uma ‘perfumaria’. Nesse setor, a medicina a distância representa apenas mais conforto ou conveniência para quem já tem condições de pagar altos valores em consultas com especialistas. É prático, mas não muda profundamente a realidade de quem já tinha acesso a médicos e tratamentos. 

             

No entanto, quando aplicada ao SUS, a telemedicina ganha um papel social muito mais relevante. Segundo dados do IBGE, em 2019, aproximadamente 71,5% dos brasileiros não possuíam plano de saúde e dependiam exclusivamente do SUS para acesso a serviços médicos. Para essa população que têm pouco acesso a especialistas e dependem da saúde pública, a telemedicina representa mais equidade, pois ajuda a aproximar quem está distante do atendimento de qualidade.

 

Por isso, ela defende que, embora não seja possível garantir, os avanços tecnológicos não tendem a aumentar as desigualdades de acesso à saúde, visto que o uso da tecnologia exacerbada no setor privado já existia em grandes centros urbanos e países desenvolvidos, antes mesmo da pandemia. No entanto, hoje, no Brasil, a maioria do que é desenvolvido em telemedicina tem aplicação direta no serviço público de saúde, como foco nas populações mais necessitadas.

             

Apesar dos ganhos no acesso à saúde e informação, Ana ressalta que a telemedicina ainda enfrenta desafios estruturais, pois o Brasil é um país de dimensões continentais e desigualdades em várias esferas. “A saúde pública é carente. A gente precisa melhorar recursos tecnológicos, capacitação e infraestrutura” defende. Ela alerta para a necessidade de investimento em coisas básicas, como salas com acústica adequada para garantir sigilo nas consultas e internet de boa qualidade para médicos e pacientes.

             

Ana Cláudia, alerta que o país ainda não está no nível de nações que já utilizavam a telemedicina antes da pandemia, como o Canadá, mas tem se desenvolvido bem e busca levar o acesso a quem mais precisa. Mesmo reconhecendo que a implantação caminha a passos lentos, Ana é categórica: “A telemedicina é um caminho sem volta. O que já foi aderido e o que será daqui pra frente não tem volta. Agora, o que precisamos é garantir infraestrutura e gestão para que ela esteja disponível de fato para a população que mais depende do sistema público”, conclui.

             

A telemedicina no Brasil se consolidou como uma inovação capaz de transformar o acesso à saúde, reduzindo distâncias e aproximando pacientes e especialistas. Se no início sua adoção foi marcada pela urgência da pandemia, hoje ela se apresenta como um modelo complementar e indispensável para fortalecer o SUS e ampliar a equidade no atendimento.

             

Entre conquistas e desafios, fica evidente que seu futuro depende não apenas do avanço tecnológico, mas também de investimentos em infraestrutura, capacitação profissional e integração com a rede pública de saúde. Mais do que uma tendência passageira, a telemedicina representa um caminho sem volta, um recurso estratégico para democratizar a saúde e garantir que ela chegue, com qualidade e eficiência, a quem mais precisa.

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“Eu não acho que isso aumentaria a desigualdade. O que conseguimos de avanço veio para aumentar a equidade”,

defende Ana Cláudia Patrocínio, docente e pesquisadora da UFU.

Ana Cláudia Patrocínio
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Sobre

FERNANDA

PUGLIERO

Sou apaixonada por escrita, leitura e pelo mundo dos esportes, mais especificamente por vôlei, fórmula 1 e futebol. Sou torcedora fanática do Palmeiras. Atualmente, estou cursando Jornalismo na Universidade Federal de Uberlândia, um curso pelo qual me apaixonei pela pluralidade que proporciona e por juntar todas as minhas principais paixões.

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